Cientistas conseguiram rastrear a origem e a disseminação de genes associados à esclerose múltipla (EM), revelando como populações antigas moldaram a distribuição atual da doença. A descoberta, baseada na análise de DNA antigo de centenas de indivíduos que viveram há milhares de anos, ajuda a explicar por que a EM é mais comum em certas regiões do mundo e fornece novas pistas sobre os mecanismos biológicos da doença.

O que é a esclerose múltipla?

A esclerose múltipla é uma doença autoimune crônica que afeta o sistema nervoso central. Nela, o sistema imunológico ataca a bainha de mielina, a substância que reveste e protege as fibras nervosas, causando inflamação e danos que interrompem a transmissão de sinais nervosos entre o cérebro e o resto do corpo.

Os sintomas podem variar de leves a graves e incluem fadiga intensa, problemas de visão como neurite óptica, dificuldade de locomoção, dormência ou formigamento nos membros, tontura, dor e alterações cognitivas. A doença geralmente é diagnosticada entre os 20 e 40 anos de idade e afeta milhões de pessoas em todo o mundo, com maior incidência em mulheres do que em homens. No Brasil, estima-se que dezenas de milhares de pessoas vivam com esclerose múltipla, com maior concentração nas regiões Sul e Sudeste.

Fatores genéticos e ambientais

Embora a causa exata da EM ainda não seja completamente compreendida, os pesquisadores sabem que uma combinação complexa de fatores genéticos e ambientais está envolvida no desenvolvimento da doença. Entre os fatores ambientais associados ao aumento do risco estão a infecção pelo vírus Epstein-Barr, baixos níveis de vitamina D frequentemente relacionados à menor exposição solar, tabagismo e obesidade na adolescência.

Um dos achados mais consistentes é a correlação entre a latitude e a prevalência da EM — quanto mais distante da linha do Equador, maior a incidência da doença. Do lado genético, estudos de associação genômica identificaram centenas de variantes genéticas que influenciam o risco de desenvolver EM. A mais significativa está localizada no complexo principal de histocompatibilidade (MHC), uma região do genoma que desempenha um papel central na regulação da resposta imunológica.

O mistério da origem e a hipótese viking

Por décadas, os cientistas observaram que a esclerose múltipla é particularmente comum na Escandinávia e em outras regiões do norte da Europa, enquanto é relativamente rara em populações próximas ao equador. Essa distribuição geográfica desigual intrigou os pesquisadores e levou à formulação de várias hipóteses ao longo do tempo.

Uma das teorias mais conhecidas era a chamada hipótese viking, que sugeria que os antigos navegadores nórdicos poderiam ter espalhado genes de risco para a EM durante suas migrações, invasões e rotas comerciais pela Europa. Até recentemente, porém, faltavam evidências genéticas concretas para confirmar essa hipótese, que permanecia como uma especulação baseada apenas em padrões epidemiológicos.

O estudo do DNA antigo

Para investigar essa questão, uma equipe internacional de cientistas analisou o DNA de mais de 1.600 restos humanos antigos encontrados em sítios arqueológicos da Eurásia, cobrindo um período de até 34 mil anos. Os pesquisadores compararam esses genomas antigos com bancos de dados genéticos modernos para rastrear a evolução e a disseminação das variantes genéticas associadas à EM ao longo do tempo.

Os resultados, publicados em janeiro de 2024, revelaram que as variantes de risco para a EM foram introduzidas na Europa por pastores nômades conhecidos como Yamnaya, que migraram das estepes da região do Mar Negro para o norte da Europa há aproximadamente 5.000 anos. Essas variantes genéticas podem ter oferecido uma vantagem evolutiva significativa na época, protegendo os pastores contra infecções transmitidas por seus rebanhos. No entanto, na era moderna, com mudanças drásticas no estilo de vida e na exposição a patógenos, essas mesmas variantes estão associadas a um risco aumentado de doenças autoimunes, incluindo a esclerose múltipla.

O papel dos vikings na disseminação

O estudo também confirmou o papel crucial dos vikings na disseminação desses genes de risco pela Europa. As populações escandinavas, que herdaram altas frequências dessas variantes genéticas dos Yamnaya e de migrações posteriores, levaram esses genes para as regiões que invadiram e colonizaram, incluindo partes das Ilhas Britânicas, da Islândia, da Normandia e do leste europeu.

Isso explica por que a prevalência da EM é particularmente alta na Escandinávia e em populações de ascendência escandinava em outras partes do mundo. A pesquisa fornece, assim, uma evidência genética convincente para a antiga hipótese viking, demonstrando como eventos históricos e migrações populacionais podem ter consequências duradouras na saúde das populações modernas. O estudo representa um avanço significativo na compreensão das raízes evolutivas da doença.

Implicações para o tratamento e a pesquisa

Compreender a história genética da esclerose múltipla não é apenas uma questão de curiosidade acadêmica. Essas descobertas têm implicações importantes para o tratamento e a prevenção da doença. Ao identificar as vias biológicas específicas através das quais essas variantes genéticas atuam, os pesquisadores podem desenvolver terapias mais direcionadas e eficazes.

Atualmente, os tratamentos para a EM incluem medicamentos imunomoduladores, corticosteroides para o controle de recaídas agudas e terapias de reabilitação para gerenciar os sintomas. O conhecimento sobre a origem genética da doença também pode ajudar no desenvolvimento de estratégias de prevenção para populações com maior risco hereditário.

Além disso, o estudo demonstra o poder da análise de DNA antigo, a paleogenômica, para desvendar as origens de doenças complexas. À medida que mais genomas antigos forem sequenciados e analisados, é provável que novas conexões entre a história evolutiva humana e a saúde contemporânea sejam descobertas, abrindo caminho para abordagens inovadoras de prevenção e tratamento.

Perguntas frequentes sobre esclerose múltipla

A esclerose múltipla tem cura?
Atualmente não há cura para a EM, mas existem tratamentos eficazes que podem reduzir as recaídas, controlar os sintomas e retardar a progressão da doença. O tratamento precoce e adequado é fundamental para melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

Quais são os primeiros sintomas da EM?
Os primeiros sintomas comuns incluem neurite óptica (visão embaçada ou perda de visão em um olho), formigamento ou dormência nos membros, tontura, fadiga intensa e fraqueza muscular. Os sintomas podem aparecer e desaparecer, variando de pessoa para pessoa.

Como o diagnóstico é feito?
O diagnóstico da EM é baseado em uma combinação de história clínica, exame neurológico, ressonância magnética para identificar lesões no cérebro e medula espinhal, e análise do líquido cefalorraquidiano. Não existe um único teste definitivo, e o diagnóstico pode levar tempo.

A EM é hereditária?
A EM não é diretamente hereditária, mas há um componente genético que aumenta a suscetibilidade. Parentes de primeiro grau de pessoas com EM têm um risco ligeiramente maior de desenvolver a doença em comparação com a população geral, mas a maioria dos casos ocorre em pessoas sem histórico familiar.

A EM afeta a expectativa de vida?
A maioria das pessoas com EM tem uma expectativa de vida próxima da normal, embora a doença possa estar associada a complicações que reduzem ligeiramente a longevidade. O acompanhamento médico regular e a adesão ao tratamento são essenciais para o prognóstico.