No dia 22 de janeiro de 2024, o primeiro-ministro indiano, Narendra Modi, inaugurou o grandioso Templo de Ram Mandir em Ayodhya, uma cidade no norte da Índia. O templo, construído sobre os restos da mesquita Babri Masjid – demolida em 1992 por uma multidão hindu – é descrito por muitos como o “Vaticano hindu” e representa um marco na ascensão de uma “nova Índia” cada vez mais alinhada ao nacionalismo hinduísta.
O evento foi transmitido ao vivo para todo o país e contou com a presença de milhões de devotos. Modi, vestindo trajes tradicionais, liderou as cerimônias de consagração da imagem do deus Ram, considerado uma das divindades mais veneradas do hinduísmo. Para os hindus, a construção do templo representa o cumprimento de uma promessa antiga e a restauração de um local sagrado.
História da disputa: a mesquita demolida
A controvérsia em Ayodhya remonta ao século XVI, quando o imperador mogol Babur teria construído uma mesquita, a Babri Masjid, no local exato onde os hindus acreditam que nasceu o deus Ram. Durante séculos, o local foi palco de tensões entre as duas comunidades. Em 1949, imagens de Ram foram colocadas dentro da mesquita, levando a conflitos e ao fechamento do local. A situação escalou dramaticamente em 6 de dezembro de 1992, quando uma multidão de ativistas hindus demoliu a mesquita, desencadeando uma onda de violência sectária em toda a Índia que deixou milhares de mortos.
Após a demolição, o governo indiano prometeu reconstruir o templo, mas o caminho foi longo e cheio de batalhas judiciais. A Suprema Corte da Índia, em 2019, proferiu a decisão final: permitiu a construção do templo hindu no local e determinou a alocação de um terreno alternativo para a construção de uma mesquita. A decisão foi amplamente celebrada pelos hindus e vista como um encerramento legal da disputa centenária.
O “Vaticano hindu”: arquitetura e simbolismo
O complexo do Ram Mandir ocupa uma área de 2,7 hectares e foi projetado no estilo arquitetônico Nagara, típico do norte da Índia. A estrutura principal tem três andares e é adornada com 392 pilares esculpidos e 44 portas. O custo estimado da obra é de cerca de 1.800 crore de rúpias (aproximadamente US$ 240 milhões), financiado principalmente por doações de devotos de todo o mundo.
O epíteto “Vaticano hindu” não é por acaso. O complexo inclui não apenas o templo principal, mas também um centro de visitantes, um museu, uma biblioteca, um centro de pesquisa e uma área para meditação. O governo indiano planeja transformar Ayodhya em um grande destino de peregrinação e turismo, com investimentos em infraestrutura, aeroporto, estradas e hotéis. A intenção é criar um centro espiritual comparável ao Vaticano para os católicos.
Para muitos analistas, a construção do templo transcende a religião. Ela se insere no projeto político do partido governista Bharatiya Janata Party (BJP) e do primeiro-ministro Modi de consolidar uma identidade hindu para a Índia, em contraste com o secularismo que marcou o país desde a independência. A “nova Índia” evocada por Modi é uma nação orgulhosa de suas raízes hindus, com um governo que não se desculpa por promover símbolos religiosos da maioria.
Impacto político e social
A inauguração do Ram Mandir ocorre em um ano eleitoral na Índia, com Modi buscando um terceiro mandato consecutivo. A cerimônia foi um espetáculo midiático, com a presença de celebridades e líderes de todo o espectro político – embora a oposição tenha criticado a participação de juízes da Suprema Corte e o uso do evento para fins partidários. Críticos apontam que a construção do templo representa a marginalização da minoria muçulmana, que corresponde a cerca de 14% da população indiana. Desde a demolição da mesquita, os muçulmanos indianos enfrentam um clima de crescente intolerância e violência, com episódios de linchamentos e discriminação.
A decisão da Suprema Corte de 2019, embora tenha sido aceita pela maioria, ainda é contestada por historiadores e juristas, que questionam a base arqueológica usada para justificar a existência de um templo hindu anterior à mesquita. O tribunal baseou-se em relatórios da Archaeological Survey of India (ASI), mas muitos especialistas apontam inconsistências e interpretações tendenciosas.
Por outro lado, os defensores do templo argumentam que a decisão trouxe paz e encerrou um conflito que se arrastava por décadas. Líderes hindus moderados esperam que a inauguração do Ram Mandir sirva como um passo para a reconciliação e a unidade nacional, embora os sinais até agora sejam mistos.
Turismo e economia local
A cidade de Ayodhya, anteriormente uma pacata cidade de importância religiosa, está passando por uma transformação radical. O governo federal e o governo do estado de Uttar Pradesh investiram bilhões de rúpias em modernização: um novo aeroporto internacional, uma estação de trem reformada, estradas alargadas e um corredor de acesso ao templo com 13 quilômetros de extensão. Hotéis, restaurantes e lojas de souvenirs surgem em ritmo acelerado. O turismo religioso já gera milhares de empregos e impulsiona a economia local. Autoridades estimam que Ayodhya pode receber até 10 milhões de visitantes por ano, superando destinos como Varanasi e Tirupati.
Comerciantes e moradores entrevistados pela BBC News Brasil relataram otimismo. “Nunca vi tanta movimentação. Agora temos esperança de um futuro melhor para nossos filhos”, disse um lojista local. No entanto, há também preocupações com o deslocamento de famílias pobres para dar lugar a grandes projetos e com a pressão sobre os recursos hídricos e de saneamento.
O que esperar da “nova Índia”?
A inauguração do Ram Mandir é um divisor de águas na história contemporânea da Índia. Para os apoiadores, é o despertar de uma civilização milenar que reassume seu lugar de direito. Para os críticos, é a consolidação de um Estado cada vez mais confessional, onde minorias se sentem inseguras. O que ambos os lados concordam é que a Índia de hoje não é a mesma de 1992. O país é mais próspero, mais assertivo globalmente e mais orgulhoso de sua herança hindu. Resta saber se essa “nova Índia” será capaz de abraçar sua diversidade histórica ou se caminhará para uma homogeneização religiosa imposta pela maioria.