O Brasil enfrenta um preocupante aumento nos casos de dengue no início de 2024, impulsionando uma corrida pela vacinação contra a doença. A alta demanda, no entanto, já resultou na falta de doses da vacina Qdenga em clínicas particulares de vários estados, gerando filas de espera e frustração entre a população que busca se proteger do vírus transmitido pelo Aedes aegypti.
Dados divulgados pelo Ministério da Saúde indicam que o país pode ultrapassar a marca histórica de casos prováveis da doença em 2024. Estados como Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e o Distrito Federal concentram o maior número de notificações. A circulação simultânea de múltiplos sorotipos do vírus, especialmente a dengue tipo 2, que não circulava com força há anos, é apontada como um dos principais motivos para a gravidade do surto, já que grande parte da população não possui imunidade contra ele. Este cenário acendeu um alerta máximo em todo o sistema de saúde.
A vacina Qdenga (TAK-003), desenvolvida pelo laboratório japonês Takeda, foi aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2023 e rapidamente se tornou a principal esperança no combate à doença. Diferente da vacina anterior (Dengvaxia), a Qdenga pode ser aplicada em pessoas que nunca tiveram contato com o vírus da dengue, ampliando significativamente o público elegível para a imunização. O esquema vacinal completo é composto por duas doses, administradas com um intervalo de três meses. As clínicas privadas, que adquiriram os primeiros lotes disponíveis no mercado brasileiro, logo se viram diante de uma demanda muito superior à oferta.
Relatos de clínicas em São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Brasília dão conta da falta da vacina. Muitos estabelecimentos suspenderam o agendamento para a primeira dose e não conseguem garantir o prazo para a aplicação da segunda dose, gerando grande apreensão entre quem já tomou a primeira injeção e teme não completar o ciclo vacinal no prazo ideal. A Associação Brasileira de Clínicas de Vacinação (ABRANGE) confirmou a situação crítica, informando que a reposição de estoques é incerta e depende de novas remessas do laboratório fabricante, que enfrenta dificuldades para atender a demanda global.
Diante da alta demanda e do surto em curso, o governo federal anunciou a incorporação da Qdenga ao Sistema Único de Saúde (SUS), tornando o Brasil o primeiro país do mundo a oferecer a vacina de forma universal no sistema público. No entanto, a quantidade de doses adquiridas pelo Ministério da Saúde para 2024 é limitada. A estratégia inicial é focar a vacinação em crianças e adolescentes de 10 a 11 anos, faixa etária que registra o maior número de hospitalizações por dengue no país, além de regiões endêmicas com alta incidência da doença. A distribuição para a rede pública começou em fevereiro, mas de forma gradual, imunizando um número restrito de pessoas em comparação com a demanda total.
O que saber sobre a vacina Qdenga? A vacina é indicada para pessoas de 4 a 60 anos de idade. Não pode ser administrada em gestantes, lactantes, pessoas com imunodeficiência congênita ou adquirida, incluindo aquelas em terapias imunossupressoras, e indivíduos com hipersensibilidade grave a algum componente da fórmula. Estudos clínicos demonstraram uma eficácia geral de cerca de 80%, com proteção mais robusta contra o sorotipo 2 do vírus. É fundamental completar o esquema com as duas doses para garantir a proteção ideal. Mesmo vacinados, é essencial manter as medidas de prevenção contra o mosquito.
Prevenção e sintomas. Enquanto a vacinação não se universaliza, o combate ao mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue, zika e chikungunya, é a principal forma de prevenção. Isso inclui eliminar água parada em vasos, pneus e garrafas, tampar caixas d'água, limpar calhas e usar repelente. A população deve ficar atenta aos sintomas clássicos: febre alta, dor no corpo e nas articulações, dor atrás dos olhos, manchas vermelhas na pele e cansaço extremo. Ao sinal de qualquer um deles, a orientação é procurar uma unidade de saúde para diagnóstico e tratamento adequados, evitando a automedicação.
A falta de vacinas contra a dengue nas clínicas particulares expõe a fragilidade do abastecimento global de imunizantes e a urgência de políticas públicas robustas. A situação reforça a necessidade de uma combinação de estratégias de saúde pública: ampliação da capacidade de produção de vacinas, campanhas eficazes de controle do vetor e preparação da rede de saúde para lidar com o aumento de casos durante epidemias. O cenário de 2024 serve como um alerta importante para o planejamento do enfrentamento das arboviroses no Brasil.