A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) encerrou sua cúpula bienal realizada em Kingstown, São Vicente e Granadinas, nos dias 3 e 4 de março de 2024, sem alcançar um acordo sobre uma declaração conjunta a respeito do conflito entre Israel e o Hamas. O Brasil, juntamente com outros países do bloco, manifestou profundo pesar pelas mortes de civis israelenses e palestinos, mas as divergências políticas internas impediram a consolidação de um texto comum. A reunião, que tinha como pauta principal temas como comércio, integração regional e mudanças climáticas, acabou dominada pelo agravamento da crise humanitária em Gaza.
Contexto do conflito
O conflito no Oriente Médio se intensificou em 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou um ataque multifacetado contra Israel, que resultou na morte de cerca de 1.200 israelenses e na captura de mais de 200 reféns. Em resposta, Israel iniciou uma ofensiva militar aérea e terrestre na Faixa de Gaza que, até o momento da cúpula da Celac, já havia causado a morte de mais de 30 mil palestinos, segundo autoridades locais de saúde. A crise humanitária se aprofundou com o deslocamento forçado de cerca de 1,5 milhão de pessoas, bloqueio de alimentos, água, medicamentos e energia elétrica, e a destruição de grande parte da infraestrutura civil do território palestino. A comunidade internacional, por meio da ONU e de diversos fóruns multilaterais, tem buscado um cessar-fogo duradouro sem sucesso.
A cúpula da Celac e o peso do tema
A Celac, que reúne 33 países da América Latina e do Caribe, tradicionalmente busca atuar como um bloco de diálogo político e integração. A cúpula de 2024 era vista como uma oportunidade de retomar o protagonismo do bloco após anos de paralisia durante a pandemia. No entanto, o conflito no Oriente Médio expôs as profundas clivagens ideológicas entre seus membros. Enquanto alguns países defendiam uma posição firme de condenação a Israel e apoio incondicional à causa palestina, outros, com laços diplomáticos e econômicos com o governo israelense, preferiram uma abordagem mais moderada.
Posições divergentes entre os membros
Durante as negociações, os países do bloco se dividiram claramente em pelo menos três grupos. O primeiro, liderado por Venezuela, Cuba, Nicarágua e Bolívia, pressionou por uma condenação explícita a Israel, incluindo a acusação de genocídio e a proposta de sanções econômicas e ruptura de relações diplomáticas. O segundo grupo, composto por Argentina (sob o governo de Javier Milei), Uruguai e Paraguai, defendeu uma linguagem mais equilibrada, que reconhecesse tanto as vítimas israelenses quanto as palestinas e evitasse termos considerados radicais. Um terceiro grupo, integrado por Brasil, Colômbia, Chile, México e Peru, buscou uma posição intermediária: condenar a violência contra civis, pedir cessar-fogo imediato e defender a solução de dois Estados, sem adotar sanções ou rompimentos.
Principais pontos de impasse
- Uso do termo "genocídio": Venezuela e Cuba insistiram na inclusão da palavra, enquanto Argentina e países moderados rejeitaram, argumentando que o termo tem definição jurídica específica e poderia politizar ainda mais a declaração.
- Sanções econômicas contra Israel: A proposta de sanções foi considerada radical pelos governos conservadores, que mantêm acordos comerciais e de cooperação com Israel.
- Classificação do Hamas: Enquanto Argentina, Uruguai e Paraguai queriam incluir a expressão "grupo terrorista", Venezuela e Bolívia recusaram, tratando o Hamas como "movimento de resistência palestino".
- Mecanismo de cessar-fogo: Houve divergências sobre a exigência de um cessar-fogo imediato e incondicional: a maioria apoiou, mas alguns países condicionaram a trégua à libertação de reféns israelenses.
A posição brasileira em detalhes
O governo brasileiro, sob a administração de Luiz Inácio Lula da Silva, emitiu uma declaração à parte após o fracasso do consenso. Na nota, o Brasil reiterou sua posição histórica em defesa de uma solução de dois Estados, com um Estado palestino viável e seguro, coexistindo pacificamente com Israel. O país deplorou as mortes de civis de ambos os lados e pediu o fim imediato das hostilidades. A diplomacia brasileira, que ocupa a presidência rotativa do G20 em 2024, tentou usar sua influência para construir uma ponte entre as posições opostas, propondo uma linguagem que condenasse a violência contra civis sem fazer acusações unilaterais. O Brasil também se comprometeu a continuar atuando em fóruns multilaterais, como a Assembleia Geral da ONU e o Conselho de Segurança, onde já havia votado a favor de resoluções de cessar-fogo.
O impacto humanitário e a urgência de ação
Enquanto os diplomatas debatiam palavras, a situação em Gaza continuava a se deteriorar. Organizações humanitárias como a ONU, a Cruz Vermelha e Médicos Sem Fronteiras relatavam falta de acesso a suprimentos básicos, hospitais sobrecarregados e epidemias iminentes. O silêncio da Celac, incapaz de emitir uma posição unificada, foi visto por críticos como um sinal de fraqueza do bloco em temas de política externa que exigem posicionamento rápido e coeso. Defensores do bloco argumentaram que a diversidade de visões é inerente à democracia e que o simples fato de o debate ter ocorrido já representava um avanço.
Reações internacionais e próximos passos
A falta de consenso na Celac gerou reações diversas. Organizações palestinas criticaram a omissão do bloco, enquanto Israel elogiou os países que impediram uma condenação mais dura. A União Europeia e os Estados Unidos, que observam os movimentos da Celac com atenção, não comentaram diretamente. Analistas avaliam que o tema voltará à pauta em outros foros regionais, como a Organização dos Estados Americanos (OEA) e a Cúpula das Américas, além de continuar sendo debatido na Assembleia Geral da ONU. A Celac, por sua vez, pode tentar retomar o assunto em reuniões ministeriais ao longo do ano.
Perguntas frequentes
O que é a Celac?
A Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) é um bloco regional criado em 2011 que reúne 33 países da América Latina e do Caribe. Seu objetivo é promover o diálogo político, a cooperação e a integração entre os países membros, excluindo Estados Unidos e Canadá. É um dos principais fóruns de concertação política da região.
Qual a importância da cúpula de 2024?
A cúpula de São Vicente e Granadinas foi a primeira presencial após a pandemia de COVID-19, e buscava retomar o protagonismo do bloco. No entanto, as divisões internas sobre o conflito no Oriente Médio ofuscaram os avanços em outros temas, como comércio e mudanças climáticas, evidenciando os desafios de se construir consensos em um cenário internacional polarizado.
Quais países da Celac têm relações mais próximas com Israel?
Argentina (sob Javier Milei), Uruguai, Paraguai e Guatemala mantêm relações diplomáticas e acordos comerciais relevantes com Israel. Esses países foram os principais defensores de uma declaração moderada na cúpula. Já Brasil, México e Chile mantêm relações estáveis, mas criticam com frequência as ações militares israelenses nos territórios palestinos.
O Brasil poderia ter agido de forma diferente?
Analistas avaliam que a posição brasileira foi coerente com sua tradição diplomática de não alinhamento automático e busca de consensos. No entanto, a polarização global torna cada vez mais difícil manter uma posição neutra. A aposta do Brasil na mediação e no diálogo, ainda que não tenha produzido uma declaração conjunta, preservou sua capacidade de diálogo com todos os atores envolvidos.