O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, afirmou em entrevista à MSNBC que o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, está "prejudicando mais do que ajudando Israel" ao manter a estratégia militar na Faixa de Gaza. A declaração representa uma das críticas mais contundentes de Biden ao líder israelense desde o início da guerra entre Israel e Hamas, em outubro de 2023.
Biden disse acreditar que Netanyahu "tem o direito de se defender" contra o Hamas, mas alertou que a abordagem israelense está causando danos à imagem de Israel no cenário internacional. O presidente americano também expressou preocupação com o alto número de vítimas civis em Gaza, que já ultrapassa 30 mil pessoas, segundo autoridades de saúde locais.
O contexto das declarações
A fala de Biden ocorre em um momento de crescente tensão diplomática entre Washington e Tel Aviv. Desde os ataques de 7 de outubro, os Estados Unidos têm apoiado militar e diplomaticamente Israel, mas a prolongada ofensiva em Gaza e o agravamento da crise humanitária têm gerado desconforto na Casa Branca.
Biden, que se identifica como sionista e sempre defendeu a segurança de Israel, tem pressionado Netanyahu nos bastidores para reduzir a intensidade da ofensiva e permitir mais entrada de ajuda humanitária em Gaza. Netanyahu, por sua vez, resiste às pressões e insiste que a guerra continuará até que o Hamas seja eliminado.
A divergência mais pública entre os dois ocorreu quando Biden afirmou apoiar a solução de dois Estados como caminho para a paz no Oriente Médio, posição rejeitada por Netanyahu e por membros de sua coalizão de extrema-direita.
Relações bilaterais sob tensão
A relação entre Biden e Netanyahu tem passado por momentos de tensão ao longo do conflito. Em fevereiro, Biden se referiu à conduta militar de Israel como "exagerada" e criticou os bombardeios em áreas densamente povoadas. As declarações recentes intensificam o tom crítico de Washington.
Analistas apontam que as falas de Biden refletem não apenas preocupações humanitárias, mas também considerações políticas internas. O presidente americano enfrenta pressão de setores progressistas de seu partido, que pedem um cessar-fogo imediato, e críticas de republicanos, que apoiam Israel incondicionalmente. A guerra em Gaza tornou-se um tema politicamente sensível nos EUA, especialmente em ano eleitoral.
O vice-presidente Kamala Harris e outros membros do alto escalão também já expressaram publicamente preocupação com a situação humanitária em Gaza. Em fevereiro, Harris pediu um "cessar-fogo temporário" e criticou a falta de entrada de ajuda humanitária.
Pressão internacional
As declarações de Biden ocorrem em meio a crescentes pressões internacionais por um cessar-fogo em Gaza. A Comunidade Europeia, a Organização das Nações Unidas (ONU) e diversos países árabes têm pedido o fim das hostilidades. O Conselho de Segurança da ONU já aprovou resoluções exigindo a entrada imediata de ajuda humanitária e a proteção de civis.
Os Estados Unidos têm evitado apoiar operações militares em áreas densamente povoadas, como Rafah, no sul de Gaza, onde mais de um milhão de palestinos estão abrigados. Biden instruiu sua equipe a apresentar alternativas à ofensiva terrestre em Rafah, propondo operações cirúrgicas contra lideranças do Hamas.
O Departamento de Estado americano também tem pressionado Israel a permitir mais entrada de alimentos, água e medicamentos em Gaza. Em março, os EUA começaram a lançar ajuda humanitária de aviões sobre Gaza e anunciaram a construção de um porto temporário para facilitar a entrega de suprimentos.
A posição de Netanyahu
Netanyahu, que lidera o governo mais à direita da história de Israel, tem insistido que a guerra continuará até que todos os objetivos sejam alcançados: desmantelar o Hamas, recuperar os reféns sequestrados em 7 de outubro e garantir a segurança de Israel. O primeiro-ministro israelense afirmou que a pressão internacional não o impedirá de prosseguir com a ofensiva.
Internamente, Netanyahu enfrenta protestos de familiares dos reféns, que pedem um acordo para libertar os sequestrados, e críticas de setores da direita, que pressionam por uma ação ainda mais dura em Gaza. O governo israelense não respondeu oficialmente às declarações de Biden, mas diplomatas israelenses afirmam que Netanyahu está disposto a ouvir as preocupações americanas, sem abrir mão dos objetivos estratégicos da guerra.
Perspectivas para o futuro
As divergências entre Biden e Netanyahu levantam questões sobre o futuro da relação entre os dois países, que historicamente têm uma aliança estratégica sólida. Especialistas acreditam que, embora as críticas de Biden representem um desconforto diplomático, é improvável que os EUA suspendam o apoio militar a Israel, dado o forte lobby pró-Israel em Washington e o compromisso histórico americano com a segurança israelense.
No entanto, as declarações de Biden podem aumentar a pressão sobre Netanyahu para apresentar um plano claro para o pós-guerra em Gaza, que inclua a reconstrução do território e um caminho viável para a paz. Analistas apontam que a continuidade da ofensiva sem uma estratégia de saída clara pode isolar ainda mais Israel diplomaticamente e prejudicar sua imagem internacional.
- Biden afirmou que Netanyahu está "prejudicando mais do que ajudando Israel" com sua postura em Gaza, em entrevista à MSNBC
- A declaração é uma das críticas mais duras de Biden a Netanyahu desde o início da guerra em outubro de 2023
- A relação entre os líderes tem se deteriorado devido a divergências sobre a condução do conflito e a solução de dois Estados
- Os EUA continuam fornecendo apoio militar a Israel, mas aumentam a pressão por mudanças na estratégia
- A guerra já causou mais de 30 mil mortes em Gaza e uma crise humanitária de grandes proporções