O ex-presidente Jair Bolsonaro realizou carreatas por cidades do litoral do Rio de Janeiro neste domingo (17), sendo recebido por apoiadores em pontos da Região dos Lagos e do Sul Fluminense. Durante os trajetos, Bolsonaro discursou para correligionários, cumprimentou populares e posou para fotos, mas evitou comentar os depoimentos que militares das Forças Armadas vêm prestando à Polícia Federal no âmbito das investigações sobre a tentativa de golpe de Estado e os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.

As carreatas começaram pela manhã, passando por cidades como Cabo Frio, Búzios, Arraial do Cabo e Rio das Ostras. À tarde, a comitiva seguiu para Angra dos Reis e Paraty, onde Bolsonaro participou de encontros com lideranças locais e apoiadores. O ex-presidente estava acompanhado de aliados políticos e seguranças privados, mas não havia agenda oficial divulgada previamente.

Perguntado por jornalistas que cobriam o evento sobre as declarações de militares que já prestaram depoimento à PF, Bolsonaro desconversou e afirmou que "não teve acesso ao conteúdo" e que "confia plenamente na inocência dos envolvidos". O ex-presidente não detalhou quais militares teriam deposto nem se referiu diretamente ao inquérito que investiga a suposta participação de integrantes das Forças Armadas nos atos que culminaram na invasão e depredação das sedes dos Três Poderes em Brasília.

Nos últimos meses, a Polícia Federal ouviu dezenas de militares, incluindo oficiais de alta patente, como parte das apurações sobre financiamento, logística e articulação política dos atos antidemocráticos. A oitiva de militares é considerada um dos pontos centrais da investigação, uma vez que há suspeitas de que parte da cúpula das Forças Armadas teria ciência ou até mesmo anuído com os planos de contestação do resultado eleitoral.

A postura de Bolsonaro ao evitar comentar os depoimentos ocorre em meio a um cenário de crescente pressão judicial e política. O ex-presidente é alvo de múltiplas investigações no Supremo Tribunal Federal e no Tribunal Superior Eleitoral, que apuram desde suposta interferência na Polícia Federal até a coordenação de atos contra o Estado Democrático de Direito. Seus advogados têm recomendado silêncio público sobre temas sensíveis relacionados às investigações em curso.

Durante as carreatas, apoiadores exibiam bandeiras do Brasil, cartazes com mensagens de apoio e faixas pedindo anistia para os presos pelos atos de janeiro. Em um dos pontos de parada, Bolsonaro discursou rapidamente e afirmou que "o Brasil precisa voltar a ser um país livre" e que "a verdade vai prevalecer", sem fazer menção direta aos processos que enfrenta. O ex-presidente também criticou o governo Lula, mencionando indicadores econômicos e a política externa adotada pelo atual governo.

Lideranças políticas de oposição que acompanharam o ex-presidente no litoral fluminense também evitaram comentar as investigações militares. Deputados federais e estaduais presentes afirmaram que o foco do ato era "demonstrar que a direita está viva e mobilizada" e que as questões judiciais devem ser tratadas "no foro adequado".

Especialistas ouvidos por veículos de imprensa destacam que o silêncio de Bolsonaro sobre os depoimentos dos militares pode ser interpretado como uma estratégia para não vincular sua imagem pública ao avanço das investigações, que ganham novos capítulos a cada semana. A estratégia de realizar carreatas e eventos com apoiadores é vista por analistas como uma forma de manter a base mobilizada e demonstrar capital político, enquanto tenta preservar seu entorno jurídico.

A Polícia Federal não se manifestou oficialmente sobre o conteúdo dos depoimentos dos militares, que correm sob sigilo. A expectativa é que novas oitivas sejam realizadas nas próximas semanas, e que o relatório final da investigação seja encaminhado ao STF ainda no primeiro semestre de 2024. O caso segue sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes.

Até o fechamento desta edição, Bolsonaro não havia divulgado novas carreatas ou compromissos públicos para os próximos dias. Assessores próximos indicaram que a agenda de eventos deve ser retomada após o feriado da Semana Santa, com possíveis passagens por estados do Nordeste e do Sul do país.

Os depoimentos dos militares à PF são considerados peça-chave para determinar a extensão do envolvimento das Forças Armadas nos atos antidemocráticos. Investigações paralelas já indicaram que ao menos 40 militares da ativa e da reserva são investigados por participação direta ou indireta nos acontecimentos de 8 de janeiro. O depoimento do tenente-coronel Mauro Cid, ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, também tem sido acompanhado de perto por investigadores.