A eleição presidencial russa de 2024 começou oficialmente no dia 15 de março e se estendeu até o dia 17, com a abertura das urnas em todo o território nacional e também em regiões da Ucrânia ocupadas pela Rússia. O pleito é amplamente visto como uma formalidade para garantir a Vladimir Putin um quinto mandato consecutivo, mantendo-o no poder até 2030. Os principais adversários políticos estão presos, exilados ou foram impedidos de concorrer pela Comissão Eleitoral Central, que aprovou apenas quatro candidatos no total. As forças de segurança russas intensificaram o patrulhamento e a repressão a protestos durante o período eleitoral, que ocorre sob o contexto da guerra na Ucrânia e do isolamento internacional crescente do país.

Contexto político e histórico

Putin está no poder desde 2000, quando foi eleito pela primeira vez. Após cumprir dois mandatos consecutivos (2000–2008), exerceu o cargo de primeiro‑ministro por um mandato e retornou à presidência em 2012. Em 2020, uma reforma constitucional polêmica “zerou” seus mandatos anteriores, permitindo que ele concorra a mais dois pleitos. A eleição de 2024 é a primeira sob as novas regras, que podem mantê‑lo no Kremlin até 2036. A reforma, aprovada em um referendo amplamente criticado por entidades internacionais, também incluiu dispositivos que fortalecem o poder do presidente e reafirmam a supremacia da Constituição russa sobre o direito internacional.

O contexto internacional é marcado pela guerra na Ucrânia, iniciada em fevereiro de 2022. O conflito aprofundou o isolamento da Rússia no Ocidente e intensificou a repressão interna contra vozes dissonantes, como ativistas, jornalistas independentes e políticos da oposição. A oposição considera que o ambiente eleitoral não é livre nem justo, com a mídia estatal controlando a narrativa e candidatos independentes enfrentando barreiras quase intransponíveis para registro de candidatura.

Esta é a primeira eleição presidencial russa realizada em meio a um conflito armado de grande escala desde a Segunda Guerra Mundial. A guerra domina o discurso oficial, que associa a imagem de Putin à defesa da pátria e à resistência contra o Ocidente.

Os candidatos

Além de Vladimir Putin, concorrem outros três candidatos registrados pela Comissão Eleitoral Central:

  • Nikolai Kharitonov – Partido Comunista da Federação Russa. Kharitonov é um político experiente que já disputou a presidência em 2004 e atua como deputado na Duma. Em sua campanha, evitou críticas diretas a Putin e concentrou‑se em temas sociais, sendo visto como um candidato de “oposição permitida”.
  • Leonid Slutsky – Partido Liberal Democrata da Rússia (LDPR). Slutsky assumiu a liderança do partido após a morte do fundador Vladimir Zhirinovsky. O LDPR é nacionalista e apoia abertamente as políticas do Kremlin, inclusive a guerra na Ucrânia.
  • Vladislav Davankov – Partido Gente Nova. Empresário e deputado, Davankov representa uma força política centrista e pró-governo, com discurso em modernização econômica e social.

O principal opositor, Alexei Navalny, está preso desde 2021 e foi condenado a penas que somam dezenas de anos. Outros potenciais candidatos, como Boris Nadezhdin (que defendia o fim da guerra), tiveram suas candidaturas rejeitadas por supostas irregularidades na coleta de assinaturas. Mais de 30 pré‑candidaturas foram apresentadas à Comissão Eleitoral, mas apenas quatro conseguiram o registro. A ausência de uma oposição real reduz a competitividade do pleito e reforça as críticas sobre a falta de democracia no processo.

Funcionamento da eleição

A Rússia adotou o voto em três dias consecutivos (15, 16 e 17 de março) para ampliar a participação e evitar aglomerações – prática iniciada durante a pandemia de covid‑19 e mantida desde então. Em várias regiões, inclusive Moscou, parte do eleitorado pôde optar pela votação eletrônica pela internet, o que gerou controvérsias sobre a segurança e a transparência do sistema. O voto não é obrigatório, mas o governo incentiva a participação como forma de legitimar o resultado; relatos indicam que autoridades em algumas localidades ofereceram incentivos como sorteios e prêmios para quem votasse.

Nas quatro regiões ucranianas anexadas unilateralmente pela Rússia em 2022 – Donetsk, Luhansk, Zaporizhzhia e Kherson – também ocorreu votação, considerada ilegítima pela Ucrânia e pela comunidade internacional. Observadores internacionais de países alinhados à Rússia, como membros da CEI e da Organização para Cooperação de Xangai, foram convidados, enquanto missões ocidentais, como a OSCE, não obtiveram autorização para monitorar. O governo russo afirma que o processo foi transparente e que denúncias de fraude são infundadas, mas diversas organizações independentes reportaram irregularidades, como falta de privacidade nas cabines e pressão sobre funcionários públicos.

Reação internacional

Estados Unidos e União Europeia condenaram a eleição, classificando‑a como antidemocrática, e anunciaram novas sanções contra autoridades russas envolvidas no processo. A Ucrânia qualificou o pleito como ilegal, especialmente nas regiões ocupadas, e pediu que a comunidade internacional não reconheça os resultados. Já China, Índia e outros países do chamado Sul Global mantiveram posição neutra; o presidente chinês Xi Jinping felicitou Putin pela vitória e reafirmou a parceria estratégica entre os dois países. O secretário‑geral da ONU não comentou diretamente, mas reiterou que a organização considera a anexação das regiões ucranianas contrária ao direito internacional.

Expectativas e possíveis desdobramentos

Pesquisas de opinião indicam que Putin deve obter entre 80% e 85% dos votos válidos, confirmando sua hegemonia política. A participação eleitoral foi monitorada de perto; dados oficiais indicaram comparecimento superior a 70%, mas há dúvidas sobre a exatidão dos números. A expectativa é que a vitória de Putin seja seguida por sanções adicionais e pelo aprofundamento do isolamento diplomático da Rússia junto ao Ocidente. Internamente, o resultado deve reforçar a estabilidade do regime e a continuidade das políticas atuais, incluindo a guerra na Ucrânia, a repressão a opositores e o controle da economia sob sanções.

No cenário internacional, a Rússia tende a aprofundar laços com China, Irã e Coreia do Norte, que se tornaram aliados estratégicos desde o início da guerra. Economicamente, o país vem se adaptando às sanções ocidentais com medidas de substituição de importações e parcerias com países asiáticos, mas enfrenta desafios como inflação, fuga de capitais e dificuldades tecnológicas. O próximo mandato de Putin também pode trazer mudanças na política externa, como uma postura mais assertiva na África e na América Latina.

Perguntas frequentes

  • Putin pode ficar no poder até 2036? Sim, a reforma constitucional de 2020 permite que ele concorra a mais dois mandatos após 2024, podendo permanecer até 2036.
  • Quantos mandatos Putin já exerceu? Ele foi eleito em 2000, 2004, 2012, 2018 e, agora, em 2024 – totalizando cinco mandatos. Se cumprir todo o período possível, alcançará seis mandatos.
  • Navalny está na disputa? Não. Alexei Navalny está preso e foi considerado inelegível. Sua equipe pediu boicote às eleições e convocou protestos.
  • As eleições russas são consideradas livres? Organizações internacionais como a OSCE e a Anistia Internacional apontam falta de competição real, controle da mídia e repressão a opositores como evidências de que o pleito não atende aos padrões democráticos.
  • Qual a diferença entre a eleição de 2024 e as anteriores? É a primeira após a reforma constitucional e a primeira em meio a uma guerra de grande escala. Além disso, o voto em três dias e a votação eletrônica foram mantidos e ampliados.
  • A votação também ocorreu nas regiões ucranianas anexadas pela Rússia? Sim, o pleito foi organizado nas autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Luhansk e nas regiões de Zaporizhzhia e Kherson, parcialmente controladas por Moscou. Ucrânia e a maior parte da comunidade internacional consideram a votação ilegítima.