A ex-prefeita de São Paulo Luiza Erundina (PSOL) afirmou na noite desta segunda-feira, 18, durante evento em São Paulo ao lado do deputado federal Guilherme Boulos (PSOL), que a decisão de Marta Suplicy de retornar ao Partido dos Trabalhadores (PT) foi um equívoco político. A declaração foi dada em conversa com militantes e jornalistas presentes em ato político promovido pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

"Acho que foi um erro. Ela não deveria ter voltado ao PT, principalmente da forma como aconteceu, sem uma discussão mais ampla com os movimentos sociais", teria dito Erundina, de acordo com relatos de participantes. A ex-prefeita, que também foi deputada federal pelo PSOL, rompeu com o PT no início dos anos 2000 e tornou-se uma das vozes críticas ao partido dentro da esquerda brasileira.

Marta Suplicy foi prefeita de São Paulo (2001-2004), senadora e ministra da Cultura nos governos Lula e Dilma. Deixou o PT em 2015, migrando para o MDB, partido pelo qual foi candidata ao governo de São Paulo. Em meados de 2023, anunciou o retorno à sigla petista, movimento interpretado como um reforço eleitoral para as eleições municipais de 2024.

Boulos, que também participou do evento, preferiu não aprofundar as críticas à volta de Marta, mas destacou que as forças de esquerda precisam estar unidas contra a agenda conservadora. "Temos diferenças, mas o que nos une é a defesa dos direitos do povo trabalhador", disse o deputado. Ele é um dos principais nomes do PSOL e possível candidato a prefeito de São Paulo em 2024, com apoio de parte do PT.

Analistas políticos ouvidos pela reportagem avaliam que as declarações de Erundina evidenciam as tensões históricas entre PSOL e PT. Embora os dois partidos frequentemente se aliem em segundo turno de eleições majoritárias, suas bases possuem divergências programáticas, especialmente em relação à política econômica e às reformas trabalhistas. "Erundina expressa um sentimento de parte da esquerda que vê com desconfiança a guinada ao centro que o PT promoveu nos últimos anos", afirmou um cientista político que preferiu não se identificar.

O evento também discutiu a conjuntura nacional, as mobilizações contra o arcabouço fiscal e as perspectivas para o movimento de moradia. Participaram lideranças comunitárias, sindicalistas e estudantes. O ato foi organizado como parte das discussões preparatórias para o congresso do PSOL marcado para o segundo semestre.

Nas redes sociais, a fala de Erundina gerou repercussão. Apoiadores do PT criticaram a declaração, chamando-a de desnecessária, enquanto setores do PSOL elogiaram a honestidade da ex-prefeita. Marta Suplicy, até o momento, não se manifestou publicamente sobre o assunto. Sua assessoria informou que ela está focada em projetos pessoais e não pretende responder a críticas neste momento.

Erundina, primeira mulher a ocupar a Prefeitura de São Paulo, eleita em 1988 pelo PT, sempre defendeu o socialismo democrático. Sua ruptura com o PT ocorreu por discordar dos rumos do partido sob Lula, que considerava uma deriva ao neoliberalismo. Hoje filiada ao PSOL, mantém discurso crítico tanto ao governo petista quanto à direita tradicional.

A trajetória de Marta Suplicy é marcada por posições pragmáticas. Começou a carreira política no PT, foi eleita prefeita com alta aprovação, depois senadora, e posteriormente ocupou ministérios. Sua saída do PT em 2015 foi atribuída a divergências com a condução da política econômica do governo Dilma Rousseff. Ao retornar ao partido, disse que o PT havia mudado e que era hora de reconstruir pontes.

O episódio ocorre em meio a negociações eleitorais em São Paulo, onde PT e PSOL discutem uma possível aliança em torno da candidatura de Guilherme Boulos. A declaração de Erundina pode ser interpretada como um recado ao PT, de que a base do PSOL não aceita alianças que diluam o programa partidário. Especialistas apontam que a fala de Erundina é também uma forma de demarcar o território do PSOL, que busca crescer sem perder identidade.

Ao final do evento, Erundina reafirmou sua posição: "Não sou contra a unidade, desde que não seja a qualquer custo. A volta da Marta como foi feita não fortalece a esquerda, pelo contrário, confunde o eleitor." A declaração foi aplaudida por parte do público presente.

O debate permanece aberto: a volta de Marta ao PT é um acerto ou um equívoco? Para Erundina, está claro. Como ela mesma disse, "o tempo dirá, mas acho que ela se arrependerá".