O Haiti enfrenta mais um capítulo grave de sua história conturbada. Sem um governo democraticamente eleito e com as ruas dominadas por gangues armadas, o país caribenho mergulhou em uma crise política e humanitária de proporções alarmantes a partir de 2024. A população, já acostumada a décadas de instabilidade, agora enfrenta uma escalada de violência, fome e doenças sem precedentes recentes.
O assassinato do presidente Jovenel Moïse em julho de 2021 desencadeou uma crise política da qual o país ainda não se recuperou. O primeiro-ministro Ariel Henry, que assumiu o cargo sem passar por um processo eleitoral, viu sua autoridade ser constantemente desafiada. Com o adiamento sucessivo das eleições, o mandato de Henry expirou, e o país ficou sem um parlamento funcional, criando um vácuo de poder que as gangues rapidamente ocuparam. O Estado haitiano, frágil e sem recursos, perdeu o monopólio da força e a capacidade de fornecer serviços básicos à população.
As gangues haitianas, que antes controlavam áreas específicas, formaram poderosas coalizões (como o "G9 e Família" e o "G-Pep") e expandiram seu domínio para cerca de 80% de Porto Príncipe e áreas estratégicas do país. Elas bloqueiam estradas, controlam o acesso a portos e distribuidores de combustível, e aterrorizam a população com sequestros, assassinatos e violência sexual. Ataques coordenados a bairros inteiros, como o ocorrido na comunidade de Carrefour-Feuilles, resultaram em deslocamentos em massa e na destruição de milhares de lares. A polícia nacional, mal equipada e infiltrada, é incapaz de conter o avanço dos grupos armados, que utilizam armamento pesado, muitas vezes contrabandeado dos Estados Unidos.
A violência agravou uma crise humanitária já crítica. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), cerca de 5,5 milhões de haitianos (quase metade da população) necessitam de assistência humanitária urgente. A fome é a principal preocupação: cerca de 1,4 milhão de pessoas estão em situação de emergência alimentar, e o bloqueio das estradas impede a chegada de alimentos e ajuda internacional. Os hospitais operam com capacidade mínima, enfrentando escassez de medicamentos, combustível para geradores e equipes médicas. O país registra um aumento alarmante de casos de cólera, desnutrição infantil aguda e mortalidade materna. Escolas foram fechadas e o sistema educacional está em colapso. A violência psicológica e o trauma afetam profundamente a saúde mental da população, especialmente das crianças e adolescentes.
Diante do colapso, o governo haitiano solicitou o envio de uma força multinacional de apoio à polícia. O Conselho de Segurança da ONU aprovou a missão em outubro de 2023, e o Quênia se ofereceu para liderá-la. No entanto, a implementação tem sido marcada por atrasos devido a desafios legais internos no Quênia, falta de financiamento e logística complexa. O Brasil, que liderou a MINUSTAH por 13 anos, condicionou sua participação a um mandato claro e à participação de outros países da região. A lentidão da comunidade internacional é criticada por organizações humanitárias, que alertam para o agravamento da catástrofe. Enquanto isso, os Estados Unidos repatriam haitianos em situação irregular, e os países vizinhos, como a República Dominicana, reforçam as fronteiras.
A saída para a crise passa, inevitavelmente, por uma solução política. Analistas defendem a formação de um governo de transição amplo e representativo, que possa organizar eleições livres e justas. Paralelamente, é necessário um programa de desarmamento, desmobilização e reinserção dos membros de gangues, além de um forte investimento em desenvolvimento social e econômico para combater as raízes da violência. Enquanto isso não acontece, o povo haitiano continua a pagar o preço mais alto, vivendo em meio ao terror e à desesperança.
Fonte: G1