A recente publicação de um atlas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) gerou intenso debate nas redes sociais e na comunidade acadêmica. O motivo? O mapa-múndi da obra posicionava o Brasil e o continente americano no centro da projeção, rompendo com a tradição eurocêntrica que domina a cartografia mundial. Mas essa escolha é apenas uma questão de perspectiva ou existe uma ciência por trás do "centro" do mundo? Para entender a polêmica, é preciso voltar no tempo e descobrir como surgiu o marco zero dos mapas.

O que é o "marco zero" de um mapa?

O ponto zero de um mapa é o encontro de duas linhas imaginárias: a Linha do Equador (latitude 0°) e um meridiano principal (longitude 0°). Enquanto a Linha do Equador é definida pela geografia do planeta (o ponto mais largo da Terra), o meridiano principal é uma convenção humana. Por séculos, diferentes civilizações usaram seus próprios meridianos de referência. Para os gregos antigos, o centro do mundo conhecido era Rodes. Já durante a Era das Grandes Navegações, os mapas frequentemente centralizavam as potências marítimas da Europa. O conceito de um "marco zero" absoluto, portanto, não existe na natureza — ele é uma invenção cultural e geopolítica, fundamental para a navegação e a padronização do tempo, mas não uma verdade geográfica absoluta.

Como o Meridiano de Greenwich se tornou a referência?

A consolidação do Meridiano de Greenwich como o "marco zero" global ocorreu em 1884, durante a Conferência Internacional do Meridiano, realizada em Washington D.C. Na época, o Reino Unido era a maior potência naval e comercial do mundo, e o Observatório Real de Greenwich já era utilizado por grande parte da frota mercante internacional. Por conveniência e influência política, 22 países votaram para adotar Greenwich como o meridiano principal. Essa decisão, prática para a navegação britânica, solidificou o mapa-múndi com a Europa no centro. Antes disso, cada nação cartografava o mundo a partir de sua própria capital ou de um ponto de referência local. A França, por exemplo, usou o Meridiano de Paris até 1911, e o Brasil já utilizou o Rio de Janeiro como referência em alguns mapas históricos.

O que fez o IBGE e por que causou polêmica?

Ao produzir um atlas com as Américas no centro, o IBGE seguiu uma lógica cartográfica perfeitamente válida. Tecnicamente, qualquer lugar do mundo pode ser o centro de um mapa. O que muda são as distorções causadas pela projeção utilizada. Ao centralizar o continente americano, o atlas brasileiro minimiza as distorções de área e forma para o nosso hemisfério, oferecendo uma representação mais fiel da América do Sul e do Norte. A polêmica surgiu justamente porque a sociedade está amplamente acostumada a ver o mundo sob a ótica europeia. Uma mudança nesse eixo visual é frequentemente interpretada por alguns setores como um ato ideológico, quando na verdade se trata de um exercício de relativização cartográfica. O IBGE, por meio de sua equipe técnica, esclareceu que a intenção foi exclusivamente didática: mostrar que existem diferentes formas de representar o globo terrestre e que o modelo eurocêntrico não é o único nem o "correto". Para os especialistas em geografia, a iniciativa foi louvável por estimular o pensamento crítico sobre a ciência cartográfica e suas convenções históricas.

Projeções cartográficas: não existe mapa perfeito

Outro ponto crucial no debate acalorado sobre o atlas do IBGE é a escolha da projeção cartográfica. O mapa-múndi mais icônico e difundido é o de Mercator, criado em 1569 pelo cartógrafo Gerardus Mercator. Sua principal característica é preservar os ângulos, o que o tornou indispensável para a navegação marítima à época. No entanto, essa projeção distorce brutalmente o tamanho real dos continentes e países à medida que se afasta da linha do Equador. O resultado é que a Groenlândia parece ter o tamanho da África (quando, na verdade, a África é 14 vezes maior), e a Europa aparece visualmente maior do que a América do Sul. Críticos da projeção de Mercator apontam que ela reforçou, ao longo dos séculos, uma visão de mundo colonial e eurocêntrica, superdimensionando o Norte Global em detrimento do Sul Global.

A polêmica das dimensões: Mercator vs. Gall-Peters

Em contrapartida, a projeção de Gall-Peters, apresentada em 1973, prioriza a proporção real das áreas dos continentes. Ela corrige a distorção de Mercator, mas o faz sacrificando as formas, que aparecem esticadas e achatadas, especialmente nas regiões equatoriais. O debate entre essas duas projeções é acirrado e carregado de implicações políticas e educacionais. O IBGE, ao criar seu atlas para o público brasileiro, optou por uma projeção que equilibrasse forma e área para o continente americano. Essa é uma prática comum na cartografia: escolher a projeção que melhor atende ao propósito do mapa e à região de interesse. Projeções como a de Winkel Tripel e a de Robinson são frequentemente usadas para mapas de referência geral por tentarem um equilíbrio entre forma, área e distância, distorcendo todos os atributos de forma moderada.

Outras formas de ver o mundo

A forma como vemos o mundo nos mapas é fortemente influenciada pela nossa localização e cultura. Na China e no Japão, por exemplo, é comum encontrar mapas-múndi com o Oceano Pacífico no centro, colocando a Ásia em destaque e as Américas nas bordas. Na Austrália, não é raro encontrar mapas vendidos com o Sul para cima, desafiando a convenção do Norte como referência. Isso demonstra que cada cultura tende a se colocar no centro de sua própria representação do mundo, e a escolha do IBGE de centralizar as Américas segue exatamente essa lógica de representação regional.

Perguntas Frequentes (FAQ)

1. O que é a Projeção de Mercator?

É uma projeção cilíndrica criada em 1569. Preserva ângulos (conforme), sendo excelente para navegação, mas distorce drasticamente o tamanho das áreas próximas aos polos. Por isso, países como a Rússia, o Canadá e a Groenlândia parecem muito maiores do que realmente são em relação aos países próximos ao Equador.

2. O mapa do IBGE é politicamente tendencioso?

Todo mapa carrega uma mensagem e é uma representação seletiva da realidade. O IBGE afirmou que a mudança de eixo foi uma decisão técnica e pedagógica. Independentemente da intenção declarada, a ação provoca uma reflexão inevitável sobre quem está no centro do mapa e por quê, o que é inerentemente um ato de posicionamento geográfico e político.

3. A escolha de Greenwich foi justa?

A escolha do Meridiano de Greenwich como marco zero em 1884 foi uma decisão geopolítica. Favoreceu a maior potência naval da época (Grã-Bretanha) e padronizou o tempo e a navegação globais. Foi uma decisão prática e, ao mesmo tempo, uma imposição cultural que perdura até hoje.

4. Qual a importância do atlas do IBGE para a educação?

O atlas do IBGE tem um enorme valor pedagógico. Ao quebrar a convenção visual do mapa-múndi, ele ensina estudantes e o público em geral que mapas não são neutros. Eles são ferramentas criadas por pessoas com intenções e recortes específicos, e entender isso é fundamental para a alfabetização cartográfica e o pensamento crítico.

5. Existe um centro real no mapa?

Não. O centro de um mapa é uma convenção humana. O ponto (0,0) definido pelo Meridiano de Greenwich e pela Linha do Equador é puramente uma referência técnica adotada internacionalmente para coordenadas, mas não representa um "centro" natural ou geográfico do planeta.

Conclusão

A polêmica do atlas do IBGE serve como um importante lembrete de que os mapas não são representações objetivas da realidade, mas sim ferramentas carregadas de história, intenção e convenção. Ao colocar o Brasil no centro, o IBGE não apenas nos deu uma nova perspectiva visual, mas também nos convidou a refletir sobre como enxergamos o mundo e nosso lugar nele. O "marco zero" dos mapas é, acima de tudo, um ponto de vista, e reconhecer isso é o primeiro passo para uma compreensão mais profunda e crítica da geografia e de sua história.