A ofensiva militar israelense na cidade de Rafah, no extremo sul da Faixa de Gaza, iniciada em 6 de maio de 2024, provocou o deslocamento forçado de aproximadamente 800 mil pessoas em apenas duas semanas, de acordo com a Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA). Rafah, que antes da operação abrigava mais de 1,4 milhão de palestinos — a grande maioria já deslocada de outras regiões do enclave — tornou-se o epicentro de uma nova crise humanitária. A operação foi justificada por Israel como necessária para eliminar os últimos batalhões do Hamas na região, mas o custo civil imediato é o maior desde o início da guerra em outubro de 2023.
A Ordem de Evacuação e a Operação Militar
As Forças de Defesa de Israel (FDI) emitiram ordens de evacuação para bairros inteiros de Rafah, dividindo a cidade em setores e instruindo a população a se dirigir para a chamada "zona humanitária" de Al-Mawasi, uma faixa costeira a noroeste da cidade. No entanto, organizações humanitárias como a UNRWA e o Escritório de Coordenação de Assuntos Humanitários da ONU (OCHA) alertaram que essa área não possui infraestrutura mínima para receber centenas de milhares de pessoas: faltam abrigos, banheiros, água potável, postos de saúde e alimentos. A evacuação ocorre sob bombardeios aéreos constantes e, em muitos casos, as famílias precisam percorrer longas distâncias a pé, carregando crianças e idosos em meio a escombros e estradas destruídas. Pessoas com deficiência, doentes crônicos e mulheres grávidas são os mais vulneráveis durante o deslocamento.
Condições Catastróficas nos Locais de Abrigo
Nos locais para onde os deslocados estão se dirigindo — principalmente Khan Younis e a área costeira de Al-Mawasi — a situação é crítica. A superlotação é extrema. Famílias inteiras dormem ao relento ou em barracas improvisadas com lonas e cobertores, sob temperaturas que chegam a 32°C durante o dia. A falta de água potável é um dos problemas mais urgentes: a UNRWA informou que a produção de água foi drasticamente reduzida pela falta de combustível para operar poços e estações de dessalinização. A fome se espalha rapidamente. A Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou que a desnutrição aguda já atinge milhares de crianças e que o risco de surtos de doenças como cólera, hepatite A e diarreia aguda é alto devido à superlotação e à ausência total de saneamento básico. Hospitais de campanha operam com capacidade limitada, sem medicamentos suficientes para tratar feridos e doentes. A UNRWA suspendeu a distribuição de alimentos em grande parte do sul por falta de suprimentos e acesso seguro.
O Bloqueio da Ajuda Humanitária
A ofensiva em Rafah teve um efeito devastador no fluxo de ajuda humanitária para toda a Faixa de Gaza. A Passagem de Rafah, que conecta o enclave ao Egito e era vital para a entrada de combustível, alimentos e medicamentos, foi fechada em 7 de maio, quando tanques israelenses assumiram o controle do lado palestino. A Passagem de Kerem Shalom, a principal porta de entrada de cargas comerciais e humanitárias a partir de Israel, sofreu interrupções constantes e opera com capacidade muito reduzida. A UNRWA afirma que suas operações estão virtualmente paralisadas pela falta de combustível, impedindo a distribuição de alimentos, o transporte de feridos e a operação de poços de água e hospitais de campanha. O Programa Mundial de Alimentos (PMA) também alertou que os estoques de comida no sul de Gaza estão se esgotando e que a população enfrenta uma fome iminente. A comunidade médica internacional denuncia que o sistema de saúde de Gaza está em colapso, com hospitais sobrecarregados e sem eletricidade.
Negociações de Cessar-Fogo Estagnadas
Enquanto a operação militar avança, as negociações indiretas entre Israel e o Hamas, mediadas por Catar, Egito e Estados Unidos, continuam sem um acordo viável. As conversas de maio de 2024 não conseguiram superar as principais divergências: o Hamas exige um cessar-fogo permanente e a retirada total das tropas israelenses de Gaza, condições rejeitadas pelo gabinete de guerra israelense, que afirma que a campanha só terminará com a eliminação da capacidade militar do grupo e a libertação de todos os reféns. A ofensiva em Rafah é vista por analistas como um obstáculo adicional às negociações. O governo israelense defende que a pressão militar é necessária para forçar o Hamas a ceder, enquanto críticos apontam que o custo civil é inaceitável e que a via diplomática é a única saída viável para encerrar o conflito.
Pressão Internacional e Papel do Brasil
A operação em Rafah gerou forte reação internacional. O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, expressou profunda preocupação e pediu a implementação imediata das medidas indicadas pela Corte Internacional de Justiça (CIJ), que em janeiro de 2024 determinou que Israel tomasse medidas para prevenir atos de genocídio e permitir a entrada de ajuda humanitária. O Brasil também defende a retomada das negociações para uma solução de dois Estados. A União Europeia e diversos países árabes condenaram a ofensiva. Os Estados Unidos, principal aliado de Israel, sinalizaram publicamente que não apoiariam uma grande operação em Rafah sem um plano crível de proteção de civis, mas até o momento não impuseram sanções ou alteraram sua política de fornecimento de armas. Protestos populares contra a guerra ocorreram em cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Buenos Aires, Londres e Washington.
Perguntas Frequentes
1. Quantas pessoas fugiram de Rafah?
Segundo a UNRWA, cerca de 800 mil pessoas foram deslocadas entre 6 e 21 de maio de 2024.
2. Para onde estão indo os deslocados?
A maioria está se dirigindo para Khan Younis e para a zona costeira de Al-Mawasi, onde não há infraestrutura adequada para recebê-los.
3. A ajuda humanitária está chegando a Gaza?
De forma muito limitada. As passagens de Rafah e Kerem Shalom estão praticamente fechadas ou operando com capacidade mínima, agravando a crise de fome e doenças.
4. O que é a zona humanitária de Al-Mawasi?
É uma faixa de areia na costa de Gaza, designada por Israel como área segura, mas que carece de água potável, saneamento, abrigos e assistência médica.
5. Qual a posição do governo brasileiro?
O Brasil pede um cessar-fogo imediato, a proteção de civis, o cumprimento das decisões da CIJ e a retomada do processo de paz com a solução de dois Estados.