A Polícia Federal identificou que Domingos Brazão, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e investigado no âmbito do assassinato da vereadora Marielle Franco, mantinha em sua posse um disco rígido externo contendo arquivos com delações premiadas que faziam referência direta ao seu nome. A informação foi divulgada pela CNN Brasil com base em fontes ligadas à investigação. O material foi apreendido durante o cumprimento de mandados de busca e apreensão realizados pela PF no âmbito da Operação Élpis, que investiga a participação de Brazão como um dos possíveis mandantes do crime que vitimou a vereadora e o motorista Anderson Gomes em 14 de março de 2018.
Segundo apurou a reportagem, o HD continha cópias de depoimentos de colaboradores da Justiça que já haviam prestado delações premiadas em outros inquéritos relacionados a milícias e ao crime organizado no Rio de Janeiro. As delações mencionavam o nome de Domingos Brazão em trechos que tratavam da atuação de grupos paramilitares na zona oeste da cidade e da suposta articulação política que protegia esses grupos. A descoberta surpreendeu os investigadores, que não esperavam que o próprio investigado mantivesse em casa um acervo tão organizado das acusações contra si.
Contexto do Caso Marielle
Marielle Franco, vereadora do PSOL, foi executada a tiros no centro do Rio de Janeiro junto com o motorista Anderson Gomes. O crime, que completou seis anos em 2024, segue sendo um dos maiores desafios da investigação criminal brasileira. As apurações apontam que a motivação do assassinato teria relação com a atuação de Marielle contra as milícias que controlam regiões inteiras do Rio. Ela havia denunciado a atuação desses grupos e proposto projetos de lei para coibir o avanço das milícias sobre territórios periféricos e comunidades.
Domingos Brazão, que à época do crime era deputado estadual pelo Rio de Janeiro, sempre negou envolvimento no assassinato. No entanto, seu nome passou a figurar no centro das investigações após delações de ex-milicianos e depoimentos que apontavam sua influência sobre grupos paramilitares na região. Brazão também é investigado por suposta obstrução de Justiça e por ter usado seu cargo para beneficiar milicianos.
A Descoberta do HD
A Operação Élpis, deflagrada pela Polícia Federal em conjunto com o Ministério Público do Rio de Janeiro, cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Domingos Brazão e a outros investigados. Durante as buscas na residência do conselheiro do TCE-RJ, os agentes encontraram um HD externo armazenado em um compartimento de difícil acesso. O dispositivo foi encaminhado para perícia, e a análise do conteúdo revelou a presença de dezenas de arquivos contendo delações premiadas que já haviam sido homologadas pela Justiça.
De acordo com fontes da PF ouvidas pela CNN Brasil, o material encontrado no HD não era de domínio público e incluía trechos sigilosos de colaborações que ainda estavam sob segredo de Justiça. A posse desse material por parte de Brazão levantou suspeitas de que ele tinha acesso privilegiado a informações das investigações em curso, possivelmente obtidas por meio de contatos dentro de órgãos públicos. A PF investiga se houve vazamento de informações e se Brazão utilizou o conteúdo para monitorar o andamento das investigações contra si e para orientar sua defesa.
Conteúdo das Delações
As delações premiadas encontradas no HD incluem relatos detalhados de ex-integrantes de milícias que atuam em bairros da zona oeste do Rio, como Jacarepaguá, Rio das Pedras e Campo Grande. Os colaboradores descreveram a estrutura hierárquica das milícias, os métodos de cobrança de taxas de segurança e transporte alternativo, e a participação de agentes públicos no esquema. Em diversos trechos, Domingos Brazão é mencionado como uma figura política que mantinha relação próxima com líderes milicianos e que teria recebido vantagens eleitorais desses grupos.
Um dos delatores afirmou que Brazão participou de reuniões em que foi discutida a necessidade de "neutralizar" a atuação de Marielle Franco na Câmara Municipal, que considerava as milícias uma prioridade de sua atuação parlamentar. Outro colaborador mencionou que Brazão teria sido informado com antecedência sobre operações policiais em áreas controladas por milícias, permitindo que os criminosos se antecipassem às batidas. Esses relatos reforçam a tese de que Brazão não apenas tinha conhecimento das atividades ilegais, como também as protegia politicamente.
Desdobramentos da Investigação
A descoberta do HD com as delações representa um marco nas investigações do Caso Marielle. O material foi incorporado ao inquérito principal, que tramita no Supremo Tribunal Federal (STF) devido ao foro privilegiado de Brazão. A defesa do conselheiro do TCE-RJ questiona a legalidade da apreensão e alega que o conteúdo do HD não pode ser usado como prova por ter sido obtido sem autorização judicial específica para acesso aos arquivos. A PF, por sua vez, sustenta que o mandado de busca e apreensão autorizava a apreensão de qualquer material relacionado às investigações.
Domingos Brazão já foi preso preventivamente em uma fase anterior da Operação Élpis, mas responde ao processo em liberdade após decisão do STF. O caso segue sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, que tem determinado novas diligências para esclarecer a participação de todos os envolvidos. A PF também investiga a possível participação de outras autoridades e agentes públicos no esquema de proteção às milícias e na obstrução das investigações do assassinato de Marielle e Anderson.
Pontos-chave
- A Polícia Federal encontrou um HD externo na residência de Domingos Brazão durante a Operação Élpis
- O dispositivo continha cópias de delações premiadas que mencionam Brazão como suposto mandante e articulador político de milícias
- O material apreendido inclui trechos sigilosos de colaborações que ainda estavam sob segredo de Justiça
- A PF investiga se Brazão teve acesso privilegiado a informações das investigações por meio de vazamentos
- O inquérito tramita no Supremo Tribunal Federal sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes
- Brazão nega as acusações e questiona a legalidade da apreensão do HD
- As investigações seguem em andamento com novas diligências sendo realizadas
Perguntas Frequentes
O que é a Operação Élpis?
A Operação Élpis é uma investigação da Polícia Federal que apura a participação de Domingos Brazão e outros suspeitos no assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes. O nome faz referência à deusa grega da esperança, simbolizando a busca por justiça no caso.
Quem é Domingos Brazão?
Domingos Brazão é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE-RJ) e ex-deputado estadual. Ele é investigado como um dos possíveis mandantes do assassinato de Marielle Franco, devido a suas supostas ligações com milícias que atuam na zona oeste do Rio.
O que significa ter um HD com delações contra si?
A posse do HD com delações indica que Brazão mantinha cópias organizadas de depoimentos que o incriminavam. Isso sugere que ele tinha acesso a informações sigilosas das investigações e possivelmente monitorava o conteúdo das acusações para orientar sua defesa ou obstruir a Justiça.
Qual a situação atual do caso?
O inquérito segue em andamento no STF, com novas provas sendo analisadas e diligências sendo realizadas. Domingos Brazão responde ao processo em liberdade, e a defesa contesta a validade de parte das provas obtidas pela Polícia Federal.