Nos últimos anos, enquanto a extrema direita ganha terreno em várias nações da União Europeia — como França, Itália e Alemanha — os países nórdicos (Dinamarca, Suécia, Noruega, Finlândia e Islândia) têm seguido uma rota oposta. Dados eleitorais e pesquisas de opinião indicam que a esquerda avança e a extrema direita recua nessa região, conhecida por seu forte estado de bem‑estar social e alta coesão social. Este artigo analisa as tendências recentes e os fatores que explicam esse movimento na contramão do continente.
Contexto regional
O chamado modelo nórdico combina capitalismo de mercado com políticas sociais abrangentes, sindicatos fortes e alto nível de confiança nas instituições. Esse ambiente parece menos propício ao discurso radical de direita, que frequentemente explora medos relacionados à imigração e à perda de identidade nacional. Nos cinco países nórdicos, partidos social‑democratas e verdes têm conseguido manter ou ampliar sua base eleitoral, enquanto as legendas de extrema direita perdem fôlego.
Dinamarca
Na Dinamarca, o Partido Social‑Democrata (Socialdemokratiet) continua sendo a maior força política. O Partido Popular Dinamarquês (Dansk Folkeparti), que nos anos 2010 chegou a ser a segunda maior bancada, sofreu um declínio acentuado nas eleições mais recentes, perdendo a maior parte de seus assentos. Ao mesmo tempo, partidos à esquerda, como a Aliança Vermelha e Verde (Enhedslisten) e a Alternativa (Alternativet), conquistaram mais espaço, refletindo uma mudança no eleitorado dinamarquês.
Suécia
A Suécia é um caso emblemático. Nas eleições de 2022, o Partido Social‑Democrata (Socialdemokraterna) manteve‑se como o maior partido, embora a coalizão de centro‑direita tenha assumido o governo com o apoio dos Democratas Suecos (Sverigedemokraterna). No entanto, os Democratas Suecos, apesar de terem se tornado a segunda maior bancada, não integraram o gabinete e viram seu ímpeto ser contido. Pesquisas subsequentes indicam que o apoio ao partido de extrema direita estagnou ou recuou, enquanto os social‑democratas recuperam popularidade.
Noruega
Na Noruega, o Partido Trabalhista (Arbeiderpartiet) voltou ao poder em 2021. O Partido do Progresso (Fremskrittspartiet), que combina populismo anti‑imigração com pautas liberais, perdeu apoio eleitoral e influência. A esquerda socialista também tem presença significativa no parlamento, e o debate público norueguês permanece focado em temas como investimento em infraestrutura e transição energética, com espaço reduzido para discursos extremistas.
Finlândia
Na Finlândia, o Partido Social‑Democrata (SDP) obteve ganhos nas eleições de 2023, enquanto o partido de extrema direita Verdadeiros Finlandeses (Perussuomalaiset), que havia crescido nos pleitos anteriores, apresentou recuo. A fragmentação política finlandesa e a tradição de governos de coalizão têm dificultado a ascensão de forças radicais, e o apoio aos sociais‑democratas tem se mostrado resiliente.
Islândia
Na Islândia, o Movimento Verde de Esquerda (Vinstrihreyfingin – grænt framboð) e a Aliança Social‑Democrata (Samfylkingin) são forças políticas relevantes. Embora o sistema partidário islandês tenha características próprias, a tendência geral alinha‑se à dos demais países nórdicos: a esquerda mantém‑se forte e a extrema direita não consegue avanços consistentes.
Fatores que explicam a diferença
Pesquisadores apontam algumas razões estruturais para o desempenho fraco da extrema direita nos países nórdicos. Primeiro, a menor desigualdade econômica reduz o apelo de discursos que culpam imigrantes ou minorias pelos problemas sociais. Segundo, a alta confiança nas instituições públicas faz com que os cidadãos recorram menos a soluções radicais. Terceiro, sistemas educacionais de qualidade promovem pensamento crítico, dificultando a disseminação de desinformação. Quarto, a experiência com governos de coalizão força os partidos a moderar suas posições para obter maioria.
Principais pontos
- A esquerda (social‑democratas, verdes e esquerda radical) avançou nos cinco países nórdicos nas últimas eleições.
- A extrema direita recuou na Dinamarca, Noruega, Finlândia e Islândia; na Suécia, estagnou após crescimento concentrado.
- Fatores como igualdade econômica, confiança institucional e educação de qualidade ajudam a explicar a resistência ao populismo de direita.
- O contraste com o restante da UE reforça a singularidade do modelo político e social nórdico.
- As tendências indicam que a extrema direita nórdica terá dificuldade para se consolidar como força majoritária.
Perguntas frequentes
1. Por que a extrema direita recuou nos países nórdicos?
O recuo decorre de uma combinação de fatores: o estado de bem‑estar social reduz a insegurança econômica; a confiança nas instituições desestimula o voto em partidos antissistema; e os partidos de esquerda conseguiram incorporar pautas como sustentabilidade e justiça social, atraindo eleitores que em outros contextos migrariam para a direita radical.
2. A esquerda nos países nórdicos é homogênea?
Não. Embora partidos social‑democratas sejam dominantes, há diferenças importantes. Na Suécia e na Dinamarca, os sociais‑democratas são mais centristas; na Noruega e na Islândia, a esquerda socialista e verde tem mais força. O que une esses partidos é a defesa do estado de bem‑estar e políticas de inclusão social.
3. Esse cenário pode mudar com a crise econômica ou aumento da imigração?
Sim, é possível. Crises econômicas profundas ou fluxos migratórios repentinos podem fortalecer discursos radicais, como já ocorreu em outros países europeus. No entanto, a resiliência das instituições nórdicas e o histórico de coesão social sugerem que a extrema direita teria dificuldade para capitalizar esses eventos de forma duradoura.