O governo federal lançou um plano de importação de arroz para tentar conter a alta dos preços ao consumidor. Mas, desde o anúncio, as regras mudaram tantas vezes que a medida ganhou o apelido de "Kinder Ovo" — a cada dia uma surpresa. Produtores, atacadistas e consumidores ficaram sem saber o que esperar.

O anúncio e o recuo

Em meados de 2024, o governo anunciou a importação de até 1 milhão de toneladas de arroz beneficiado, isentando o produto do imposto de importação. A ideia era forçar uma queda nos preços internos, que vinham pesando no bolso das famílias. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) ficaria encarregada de realizar os leilões.

No entanto, antes mesmo do primeiro leilão, o governo recuou. Pressão de produtores rurais e de parlamentares da bancada agrícola fez o Palácio do Planalto suspender temporariamente a medida. O argumento era de que a importação prejudicaria os agricultores nacionais, que já enfrentavam custos elevados com insumos e combustíveis.

Mudanças constantes

Dias depois, o governo retomou o plano, mas com novas condições. Desta vez, a importação seria feita em lotes menores e com cotas reservadas para produtores locais. As alíquotas também mudaram: o imposto de importação, antes zerado, passou a ter uma redução parcial. Em menos de um mês, houve pelo menos três alterações no edital dos leilões.

Essa instabilidade gerou frustração no mercado. "Não há previsibilidade. Cada semana é uma regra nova. Isso dificulta o planejamento de quem compra e de quem vende", afirmou um representante de uma associação de supermercados sob reserva.

Reações do setor

Os produtores rurais, representados pela Frente Parlamentar da Agropecuária, comemoraram a suspensão inicial, mas criticaram a retomada. "O governo não pode ao mesmo tempo dizer que apoia o agro e depois importar arroz sem diálogo", disse um líder sindical.

Já os consumidores e a indústria alimentícia esperavam que a importação derrubasse os preços. Mas, com as idas e vindas, o efeito foi limitado. O preço do arroz nas gôndolas continuou volátil, e em algumas regiões houve relatos de estoques reduzidos.

Especialistas em economia agrícola apontam que a medida, embora bem-intencionada, foi mal executada. "Importar arroz não é simples. Envolve logística, câmbio, armazenagem. Quando o governo muda as regras o tempo todo, o setor privado não consegue se organizar", explicou um professor de economia da USP ouvido pela reportagem.

Análise de especialistas

O vaivém na política de importação de arroz foi classificado por analistas como "errático". Comparações com o brinquedo Kinder Ovo, que traz uma surpresa a cada unidade, se multiplicaram nas redes sociais e na imprensa. "Cada dia uma surpresa" virou bordão para resumir a falta de coordenação entre os ministérios da Agricultura, Fazenda e Desenvolvimento Agrário.

Para o economista e consultor de mercado agrícola Marcos Fonseca, o governo precisa definir uma estratégia clara e comunicá-la de forma consistente. "O consumidor quer preço justo, o produtor quer proteção. É possível equilibrar, mas com diálogo e estabilidade de regras", afirmou.

O que esperar daqui para frente?

Até o fechamento desta edição, a Conab mantinha a previsão de realizar novos leilões nos próximos meses. O governo estuda também medidas complementares, como a redução do ICMS sobre o arroz em parceria com os estados. No entanto, a credibilidade da política de importação ficou abalada.

A tendência é que o mercado passe a descontar prêmios de risco maiores nas negociações do arroz, o que pode manter os preços elevados por mais tempo. Para o consumidor, a recomendação dos especialistas é pesquisar e, se possível, estocar durante promoções.

Principais dúvidas sobre a importação de arroz

Por que o governo decidiu importar arroz?
Para conter a alta dos preços internos e garantir o abastecimento, já que o arroz é um item essencial na cesta básica do brasileiro.

Quantas mudanças ocorreram no plano?
Em menos de dois meses, houve ao menos três grandes alterações: suspensão, retomada com cotas e ajustes nas alíquotas de importação.

A importação conseguiu reduzir os preços?
O impacto foi limitado devido à instabilidade das regras e à reação do mercado. O preço ao consumidor não caiu de forma significativa.

O que pode ser feito para melhorar a política?
Especialistas sugerem maior diálogo com o setor produtivo, definição de regras estáveis e coordenação entre os ministérios envolvidos.