Faltando poucas semanas para a cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris 2024, um velho conhecido dos infectologistas volta a preocupar autoridades sanitárias ao redor do mundo. A coqueluche, doença bacteriana altamente contagiosa que afeta o sistema respiratório, vive um surto global expressivo, com destaque para o aumento vertiginoso de casos no Brasil e em diversos países da Europa.

Na França, país sede do megaevento esportivo, as autoridades de saúde reportaram um aumento de mais de dez vezes no número de casos nas primeiras semanas de 2024 em comparação com o mesmo período do ano anterior. O cenário acendeu um sinal de alerta para a circulação da bactéria Bordetella pertussis em meio à aglomeração de atletas, turistas e jornalistas. No Brasil, o Ministério da Saúde também emitiu notas técnicas reconhecendo o crescimento da doença e reforçando a importância da imunização.

O que é a coqueluche?

A coqueluche, popularmente conhecida como tosse comprida, é uma infecção respiratória altamente transmissível causada pela bactéria Bordetella pertussis. A transmissão ocorre pelo contato direto com gotículas de saliva expelidas por uma pessoa infectada ao tossir, espirrar ou falar. O período de incubação varia de 5 a 10 dias, e a doença pode se manifestar de forma atípica em adultos, o que dificulta o diagnóstico precoce e favorece a propagação.

Os sintomas iniciais se assemelham a um resfriado comum: febre baixa, mal-estar, coriza e tosse seca. Após uma ou duas semanas, a tosse se torna mais intensa e característica, apresentando-se em crises paroxísticas (acessos de tosse incontroláveis), frequentemente seguidas por um som agudo e prolongado na inspiração — o "guincho" que dá nome popular à doença. Em bebês, esses acessos podem levar à apneia (parada da respiração) e cianose (coloração arroxeada da pele), configurando quadros de extrema gravidade.

O tratamento é baseado no uso de antibióticos específicos, como azitromicina e eritromicina, que reduzem a transmissibilidade e a gravidade dos sintomas, principalmente se iniciados na fase inicial da doença. Medidas de suporte, como hidratação e oxigenioterapia, podem ser necessárias nos casos mais graves, especialmente em lactentes.

O ressurgimento da coqueluche no Brasil e no mundo

Dados epidemiológicos recentes indicam uma tendência global de aumento no número de casos de coqueluche. No Brasil, os registros da doença, que haviam diminuído drasticamente durante os anos de isolamento social da pandemia de COVID-19, voltaram a subir de forma expressiva a partir de 2023. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais já emitiram alertas epidemiológicos para a circulação da bactéria.

A Europa também enfrenta um surto de grandes proporções. A República Tcheca, a Holanda e a França estão entre os países com maior incidência. Na França, as autoridades de saúde relataram que o surto atual é o maior dos últimos anos, afetando principalmente crianças não vacinadas ou com vacinação incompleta, além de adolescentes e adultos cuja imunidade vacinal ou natural já diminuiu com o tempo.

Especialistas apontam para um cenário de "dívida imunológica" (imunity debt) gerada pela menor exposição à bactéria durante a pandemia, aliada à cobertura vacinal abaixo da meta em diversos países. A coqueluche é cíclica e os períodos de baixa circulação podem gerar bolsões de suscetíveis, preparando o terreno para surtos explosivos quando a circulação da bactéria retorna.

O alerta em Paris e os Jogos Olímpicos de 2024

Paris se prepara para receber milhões de visitantes para os Jogos Olímpicos, e a situação epidemiológica da coqueluche acendeu um alerta sanitário de grandes proporções. A aglomeração de pessoas em espaços fechados, como transportes públicos, arenas esportivas e locais de hospedagem, cria um ambiente ideal para a propagação da Bordetella pertussis.

O governo francês, em conjunto com a Organização Mundial da Saúde (OMS), emitiu recomendações para que viajantes verifiquem sua situação vacinal antes de embarcar. A principal orientação é que gestantes, profissionais de saúde e pessoas que terão contato com bebês estejam imunizadas. Bebês com menos de 6 meses são os mais vulneráveis a complicações graves e óbito pela doença, e a vacinação de pessoas ao redor — a estratégia do "casulo" — é uma das medidas de proteção mais eficazes.

Para o Brasil, o alerta é duplo: é preciso proteger os viajantes que irão ao evento e também monitorar a possível introdução de novas cepas ou o aumento da transmissão com o retorno dos turistas. O Ministério da Saúde brasileiro reforçou a importância de verificar a caderneta de vacinação para quem vai viajar para a França.

Vacinação: a chave para a prevenção

A vacinação é a principal e mais eficaz ferramenta para prevenir a coqueluche. No Brasil, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) oferece a vacina pentavalente e a DTP para crianças, além da dTpa (tríplice bacteriana acelular do tipo adulto) para gestantes e profissionais de saúde.

É crucial que as gestantes tomem a vacina dTpa a partir da 20ª semana de gestação. Essa estratégia garante que a mãe produza anticorpos que são transferidos para o bebê, protegendo-o nos primeiros meses de vida, antes que ele possa receber suas próprias vacinas. A vacinação de reforço também é recomendada para profissionais de saúde, parteiras, doulas, cuidadores de idosos, profissionais da educação infantil e bombeiros.

Manter a caderneta de vacinação atualizada é um ato de cuidado individual e coletivo. A baixa cobertura vacinal observada nos últimos anos é apontada como um dos principais fatores para o ressurgimento da coqueluche no país e no mundo.

Perguntas Frequentes (FAQ)

A coqueluche pode ser confundida com outras doenças?

Sim, no estágio inicial, os sintomas são muito parecidos com os de um resfriado ou gripe. A tosse seca e prolongada é o principal sinal de alerta para a coqueluche, especialmente quando ocorre em acessos e é seguida pelo "guincho" característico na inspiração.

Existe tratamento para a coqueluche?

Sim, a doença é tratada com antibióticos. O diagnóstico precoce é fundamental para reduzir o risco de transmissão e complicações, principalmente em bebês e crianças pequenas.

Viajar para os Jogos Olímpicos oferece risco de contrair a doença?

O risco existe em qualquer aglomeração. A melhor forma de se prevenir é estar com a vacinação em dia (especialmente a dTpa para adultos) e adotar medidas de higiene, como lavar as mãos com frequência e usar máscara em locais fechados e com grande fluxo de pessoas.