O primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, anunciou nesta segunda-feira (4) o lockdown total na Inglaterra, com duração prevista até meados de fevereiro. A medida foi tomada devido ao avanço acelerado da nova cepa do coronavírus, que é até 70% mais transmissível. A Escócia também adotou medidas semelhantes, com a primeira-ministra Nicola Sturgeon decretando lockdown total a partir da meia-noite desta terça-feira (5), válido até o final de janeiro.

O anúncio de Johnson ocorre menos de 24 horas após ele ter afirmado que as escolas permaneceriam abertas. A mudança repentina acontece em meio ao colapso do sistema de saúde britânico, com hospitais lotados e falta de leitos. O Reino Unido registrou 54.940 novos casos de Covid-19 no domingo (3), o maior número diário desde o início da pandemia, elevando o total de mortes para mais de 75 mil.

O que é a nova cepa do coronavírus?

A nova variante, identificada como B.1.1.7, foi detectada pela primeira vez em setembro de 2020 no sudeste da Inglaterra, principalmente em Kent e Londres. Estudos preliminares indicam que ela é entre 40% e 70% mais transmissível do que as cepas anteriores, embora não haja evidências de que cause doença mais grave ou maior taxa de mortalidade. A rápida disseminação da variante levou os cientistas a alertarem que as medidas de controle existentes poderiam não ser suficientes para conter o aumento exponencial de casos.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classificou a B.1.1.7 como uma "variante de preocupação" e recomendou que os países intensificassem a vigilância genômica e as medidas de saúde pública. Desde então, dezenas de nações detectaram a nova cepa, incluindo Brasil, Estados Unidos, Canadá, França, Alemanha, Austrália e Japão.

Medidas de lockdown em detalhe

As novas regras na Inglaterra determinam que as pessoas devem ficar em casa, permitindo saídas apenas para atividades essenciais: compras de alimentos e medicamentos, exercícios físicos (limitados a uma vez por dia e preferencialmente perto de casa), cuidados de saúde e trabalho que não possa ser realizado remotamente. Escolas primárias e secundárias fecharam e passaram a oferecer aulas remotas, exceto para filhos de trabalhadores essenciais e alunos vulneráveis.

Na Escócia, as regras são semelhantes: recomendação estrita de ficar em casa, fechamento de escolas até o final de janeiro e proibição de encontros presenciais entre diferentes domicílios, exceto para suporte essencial. A polícia recebeu autoridade para multar quem descumprir as determinações.

As medidas representam uma reviravolta em relação à estratégia anterior do governo britânico, que apostava em um sistema de níveis regionais de restrição. A nova onda de casos, impulsionada pela variante, forçou a adoção do lockdown mais rigoroso desde março de 2020.

Impacto no sistema de saúde

O Serviço Nacional de Saúde (NHS) do Reino Unido enfrenta a maior pressão desde o início da pandemia. Hospitais na Inglaterra registraram recordes de hospitalizações, com ocupação de leitos de UTI superior à da primeira onda. Profissionais de saúde relataram exaustão e falta de equipamentos de proteção. Em algumas regiões, pacientes foram transferidos para outras cidades ou tratados em corredores devido à superlotação.

O governo acelerou a campanha de vacinação, priorizando idosos, profissionais de saúde e grupos de risco. Até o início de janeiro, mais de 1 milhão de pessoas já haviam recebido a primeira dose, mas o ritmo ainda era insuficiente para conter a transmissão. O lockdown visa ganhar tempo para que a vacinação alcance uma cobertura mais ampla.

Reações internacionais e implicações para o Brasil

Diversos países suspenderam voos e restringiram a entrada de viajantes do Reino Unido para tentar conter a disseminação da nova cepa. No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomendou a testagem e quarentena de passageiros vindos do Reino Unido. Pesquisadores brasileiros confirmaram a presença da variante B.1.1.7 em pelo menos dois estados (São Paulo e Rio de Janeiro) ainda em janeiro de 2021, levantando preocupações sobre uma possível nova onda de casos.

A experiência do Reino Unido serviu de alerta para outros países: mesmo com medidas de distanciamento, a nova cepa pode causar um aumento explosivo de infecções. Especialistas brasileiros passaram a defender a intensificação de medidas não farmacológicas, como uso de máscaras, higiene e isolamento social, além da aceleração da vacinação com as doses disponíveis.

Perguntas frequentes sobre a nova cepa e o lockdown

A nova cepa é mais letal?

Até o momento, não há evidências conclusivas de que a variante B.1.1.7 cause maior gravidade da doença ou aumento na taxa de mortalidade. No entanto, sua maior capacidade de transmissão pode levar a um número absoluto maior de hospitalizações e óbitos, simplesmente por infectar mais pessoas.

As vacinas funcionam contra a nova cepa?

As principais vacinas em uso (Pfizer, Moderna, AstraZeneca) mantiveram eficácia contra a variante B.1.1.7, pois ela não apresenta mutações significativas na proteína spike que comprometam a resposta imune induzida pelas vacinas. Estudos laboratoriais e dados de campo confirmaram que a proteção contra doença grave permanece elevada.

Por que o lockdown foi necessário mesmo com a vacinação em andamento?

A vacinação leva tempo para atingir cobertura populacional suficiente. Em janeiro de 2021, apenas uma pequena parcela dos britânicos havia recebido a primeira dose. A combinação da alta transmissibilidade da nova cepa com o relaxamento das medidas durante o Natal criou um cenário de crescimento explosivo, exigindo medidas drásticas para evitar o colapso do sistema de saúde.

O que isso significa para o Brasil?

A detecção da nova cepa em território brasileiro acendeu um alerta. Especialistas recomendaram reforçar a testagem, o rastreio de contatos e manter as medidas de distanciamento. A chegada de vacinas e o planejamento da imunização em massa tornaram-se ainda mais urgentes. O acompanhamento da evolução da variante no país foi intensificado por laboratórios de referência.

O lockdown no Reino Unido representa um reconhecimento de que a nova cepa do coronavírus exige respostas mais duras. Enquanto a vacinação avança, a combinação de restrições de circulação, testagem e vigilância genômica continua sendo a principal estratégia para evitar uma sobrecarga dos sistemas de saúde e salvar vidas.